A Arte de Propor Soluções Fáceis a Problemas Complexos: Uma Jornada à Ignorância e ao Radicalismo
- dalmoroumie
- 16 de jul.
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No palco da política e da sociedade de nosso tempos, uma conduta perigosa tem ganhado destaque: a arte de vender soluções simplistas para problemas que, por sua natureza, são intrincados e multifacetados. Essa atitude, muitas vezes aplaudida por multidões ávidas por respostas rápidas, especialmente nas redes, pavimenta um caminho direto para a ignorância e o radicalismo, distorcendo a realidade e inviabilizando o progresso genuíno.
A Sedução da Simplificação
A vida moderna nos bombardeia diariamente com temas de relevantee complexidade: são as economias interligadas, as crises climáticas globais, os movimentos migratórios massivos, a polarização social e os avanços tecnológicos que redefinem o trabalho e relações humanas. Diante de um cenário tão denso, todos buscam, naturalmente, clareza e controle, em terreno fértil para o surgimento dos "profetas das soluções fáceis", que oferecem narrativas reducionistas, transformando problemas e desafios complexos em duelos binários entre “nós” e “eles”, entre o “bem” e o “mal”, entre o “certo” e o “errado”.
Somos todos, em maior ou menor grau, seduzidos pela promessa de aliviar o fardo da reflexão e da análise crítica. Por que entender as causas e efeitos da inflação ou da produtividade se podemos simplesmente culpar “os estrangeiros” ou “os comunistas”? Por que debater as causas profundas da criminalidade se a resposta é apenas “mais polícia”, "mais penas" ou “mais presídios”? A retórica simplista é um atalho mental que, embora satisfatória no curto prazo, nos afasta da compreensão real do mundo.
Importa reconhecer, no entanto, que a necessidade de simplificar não surge apenas de má-fé. Muitas vezes, trata-se de uma limitação natural da comunicação política em sociedades de massa ou da ansiedade legítima das pessoas diante da incerteza e da velocidade do consumo de informação nos dias de hoje. A questão central não é a simplificação em si, mas sua transformação em dogma inabalável e imune à crítica.
A Ignorância como Ferramenta — e como Fraqueza
A imposição de soluções fáceis pode ser um sinal de preguiça intelectual, mas também se tornou, em certos contextos, uma ferramenta deliberada para cultivar a ignorância, sobretudo para os que querem conquistar apoiadores, seguidores e (por que não?) eleitores. Reduzir problemas complexos a slogans e inimigos é uma estratégia que poupa tempo e trabalho pela anulação da necessidade de conhecimento especializado, de dados, de diálogo e de experiência. Especialistas e estudiosos são desqualificados como “elitistas” ou “parte do sistema”, e a informação é costumeiramente rotulada como “notícia falsa” ou "doutrinada".
O ambiente digital aprofunda essa tendência, já que sua única porta de entrada são plataformas que operam com algoritmos de engajamento, cujo único propósito é amplificar reações emocionais e a percepção simplista da realidade, porque assim se gera gera mais cliques, compartilhamentos e indignação. O resultado é um ciclo vicioso de desinformação e reforço de certezas superficiais e sentimentos comuns a todos, geralmente negativos.
Nesse clima, a emoção substitui a razão, e a convicção, por mais infundada que seja, sobrepõe-se à evidência, resultando em uma sociedade cada vez mais desinformada, onde o debate público se degrada em troca de ataques pessoais, com frequentes ataques ao "emissor da crítica", sem sequer mencionar o tema do debate em si. A ignorância se torna um escudo contra a autocrítica e, paradoxalmente, uma fraqueza coletiva que fragiliza instituições e compromete políticas públicas.
Um exemplo notório dessa dinâmica se manifesta nas políticas comerciais. Quando uma nação, pautada por uma ideologia de “primeiro o próprio país”, impõe tarifas elevadas a produtos de outros países — como as tarifas de 50% impostas pelo governo americano a importações brasileiras, baseadas em interesses geoeconômicos e proteção industrial — o que se vê é a tentativa de resolver um problema complexo de competitividade com uma solução fácil. Ignora-se a intrincada teia de cadeias de suprimentos globais, o aumento de custos para indústrias domésticas que dependem de insumos importados e a inevitável consequência a sua própria população, que acaba por prejudicar o próprio setor produtivo que se pretendia proteger.
O Salto para o Radicalismo
Quando as soluções fáceis inevitavelmente falham — pois problemas complexos não cedem a simplificações — a frustração e a decepção se instalam e, frequentemete, não há espaço para a reavaliação das premissas equivocadas que determinaram a política, impondo que a narrativa seja então mais radical ainda. A culpa pelo desacerto é transferida para novos bodes expiatórios, e as medidas anteriormente apresentadas como “a solução” passam a ser consideradas insuficientes, exigindo ações ainda mais extremas, sempre na mesma linha, para que não se enfraqueça o "dono" da ideia.
Esse ciclo não é novo na história. O século XX testemunhou regimes que nasceram da promessa de restaurar a ordem e devolver o orgulho nacional por meio de soluções simples, apenas para derivar em autoritarismo e tragédias coletivas, à exemplo de diversos movimentos totalitários que exploraram o medo e a incerteza, transformando a simplificação em doutrina oficial e a dúvida em crime.
No Brasil de hoje, a polarização política, infestada pelo radicalismo, oferece terreno fértil para essa dinâmica, que se alimenta de mecanismos similares: uma combinação de frustração, tribalismo e disseminação digital de certezas fabricadas. Problemas crônicos como a desigualdade social, a violência urbana ou a instabilidade econômica são frequentemente reduzidos a simplificações ideológicas, afastando os debates aprofundados sobre as políticas públicas que realmente importam e seria capazes de produzir resultados infraestruturantes e de longo prazo de vigência.
Ao reverso do desejável, testemunhamos uma disputa incessante de narrativas que apontam culpados únicos e prometem soluções mágicas, com a demonização do “outro lado” do espectro político, que impede a construção de pontes e o desenvolvimento de soluções cooperativas e abrangentes, tornando comum a atuação descartável, produzida para os cortes viralizáveis nas redes. Quando o simplismo fracassa, não raro o discurso se torna mais virulento, e a sociedade, mais intolerante e carente da liderança construtiva e responsável com o interesse comum.
O Caminho da Sabedoria
Enfrentar problemas complexos exige humildade intelectual, paciência e coragem. Humildade para reconhecer que não há respostas universais e que o conhecimento é um processo contínuo. Paciência para mergulhar nos detalhes, analisar múltiplas perspectivas e aceitar que o progresso é gradual. E coragem para resistir à tentação das soluções fáceis, defendendo o diálogo, a expertise e a busca por consensos mesmo diante da pressão popular.
Embora esse caminho possa parecer abstrato, existem exemplos concretos de sociedades que têm buscado consolidar uma cultura política baseada em evidências e diálogo. Experiências como os orçamentos participativos em algumas cidades brasileiras, assembleias deliberativas para discutir temas polêmicos como o aborto, descriminalização de drogas em países europeus, ou a consolidação de pactos interpartidários em países escandinavos mostram que é possível criar espaços institucionais de escuta, cooperação e construção progressiva de soluções.
A verdadeira arte não reside em simplificar o complexo, mas em compreendê-lo profundamente e, a partir dessa compreensão, construir respostas robustas e sustentáveis. É uma arte que exige esforço coletivo — cidadãos, lideranças políticas, instituições e mídias — mas que nos afasta da viagem rumo à ignorância e ao radicalismo, guiando-nos, em vez disso, para um futuro mais informado, plural e resiliente.
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